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Artigo•17 de setembro de 2026

Da limpeza de balanços ao valor do conhecimento: a nova fase do mercado de NPL em Portugal

O stock de crédito malparado em Portugal caiu cerca de dez vezes na última década. Joel de Sousa, Chief Strategy Officer da Solicit, reflete sobre a nova fase do mercado de NPL, em que o conhecimento e a capacidade de gestão se tornam o verdadeiro ativo estratégico.

Da limpeza de balanços ao valor do conhecimento: a nova fase do mercado de NPL em Portugal

O mercado de NPL em Portugal já não é o mesmo de há dez anos, e os números mostram-no melhor do que qualquer opinião: o stock de crédito malparado caiu cerca de dez vezes na última década, fechando 2025 nos 4.1 milhões de euros. Para quem começou a trabalhar neste setor quando as carteiras problemáticas se contavam às dezenas de milhares de milhões, este é um número que muda tudo. Já não existe a mesma matéria-prima para vender.

A primeira grande transformação foi a limpeza dos balanços dos bancos, a segunda, a criação de um mercado profissional de compra e venda de NPL, hoje com servicers e investidores a fazer negócios cada vez mais sofisticados entre si. Temos visto operadores a sair do mercado português e outros a consolidarem-se, criando plataformas maiores e mais diversificadas, não apenas por opção de crescimento, mas também como resposta direta à escassez de carteiras. Já não é apenas a carteira que tem valor, é a própria capacidade de gestão que se tornou um ativo de consolidação. E isto leva-me à pergunta que hoje me parece mais relevante: o que acontece quando a quantidade deixa de ser o principal motor de crescimento?

É verdade que 2024 trouxe uma aceleração do volume transacionado, depois de dois anos de quebra. Mas boa parte desse crescimento veio de uma única operação de grande dimensão, o que muda a leitura: não é sinal de que os grandes volumes voltaram a ser a norma. É mais provável que estejamos a ver os últimos grandes movimentos de limpeza, não o início de um novo ciclo. E um mercado maduro não pode continuar a depender de stock acumulado que, estruturalmente, está a esgotar-se.

Isto obriga a repensar onde está o valor. O servicer deixou de ser apenas quem recebe uma carteira e executa uma estratégia definida por terceiros. Quem está diariamente em contacto com devedores e com os diferentes comportamentos de recuperação acumula um conhecimento que só agora começa a ser tratado como um ativo estratégico, e não apenas operacional. É aí que vai estar uma parte importante da diferenciação real entre operadores.

Não vejo o futuro do setor como uma disputa entre bancos, fundos e servicers. Vejo antes um ecossistema em que cada participante vai ter de mostrar, com factos, onde acrescenta valor. Os bancos, na qualidade dos balanços e na gestão do risco. Os investidores, cada vez mais, na leitura correta de um mercado com mais informação disponível. E os servicers, talvez o caso mais interessante de todos, na capacidade de provar que a sua execução e o seu conhecimento alteram mesmo o resultado de uma carteira.

Portugal tem hoje um conhecimento acumulado sobre NPL que não tinha há uma década: investidores experientes, bancos mais preparados, um setor de servicing mais especializado. Fica então a questão: vamos continuar a medir a maturidade do mercado pelo volume transacionado, ou começamos a medi-la pela qualidade das decisões que esse conhecimento nos permite tomar?

Talvez seja esse o próximo teste à maturidade do mercado português.

Joel de Sousa
Chief Strategy Officer | Solicit

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